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"Eu não costumo falar sobre o que falam as canções, porque elas são sobre muitas, muitas coisas", diz Tori Amos. Na verdade, ela trata as canções como seres no seu próprio direito [de existência?], cada uma com sua própria identidade, personalidade e pauta. Mas com seu nono álbum, The Beekeeper, as regras mudaram. Há uma urgência com as canções, uma necessidade de despertar e mover-se que é parte um sinal de alerta e parte um farol sentinela. "A tempestade está no horizonte", diz Amos. "Está chegando, essa força colossal. Pode ser física ou emocional - ou todas essas coisas." The Beekeeper é uma alegoria sobre esta tempestade vindoura, e a jornada de uma mulher através dela. Não é uma autobiografia, apesar de Amos admitir que "se eu não estiver relacionada com isso de alguma maneira, eu não seria capaz de canta-las." É, no entanto, muito sobre os tempos atuais e sobre a luta para encontrar uma verdade sólida sob esse emaranhado de mentiras, mitologia, suposições casuais e manipulação política que tem formado a paisagem cultural dos Estados Unidos hoje. Para Amos, os problemas que a América enfrenta tem menos a ver com a simplistica dualidade dos estados "vermelhos" e "azuis" do que com as maneiras com as quais o poder, a fé e os relacionamentos tem sido mal interpretados e utilizados. "Eu abordei o último disco (Scarlet's Walk) da parte indígena do meu sangue", diz ela. Neste álbum, ela percebeu que "o único modo de dirigir-se a fenda [?] que estava ocorrendo na própria América era aprofundar em mim mesma como uma mulher cristã. Se os ensinamentos de Cristo estão sendo sequestrados e manipulados pelos políticos, então eu devo retornar como a filha dessa igreja cristã, dentro desse sistema, desses simbolismo e alegorias." Amos certamente tem o perfil apropriado. Filha de um padre metodista, ela quase literalmente cresceu na igreja, e ela fala sobre sua infância e seu relacão com a religião profundamente no livro "Tori Amos: Piece by Piece", que ela escreveu com a grande jornalista musical Ann Powers. Mas, para a preparação de The Beekeeper, Amos começou a pesquisar os primórdios do cristianismo, indo além de Mateus, Marcos, Lucas e João e investigando os vários evangelhos gnósticos da Biblioteca Nag Hammadi que foram descobertos no Egito em 1945. Iniciando com "The Gnostic Gospels", de Elaine Pagel, Amos deparou-se ela mesmo perguntando-se, "E se nós todos estivéssemos sendo manipulados?" Ela estava particularmente intrigada pela noção de que os ensinamentos de Jesus tenham sido editados para favorecer os pais da igreja sobre as mães da igreja, reduzindo o papel das mulheres e retirando quase completamente Maria Madalena da história. "Quanto mais eu pesquisava isso, mais eu percebia que havia mulheres profetas, mulheres produzindo seus próprios escritos", ela diz. "O evangelho de Maria Madalena foi atribuído à ela, dando seu ponto de vista, quem quer que fosse o escrivão." "Mas o que de fato me fascinou foi que havia pessoas naquele tempo não muito diferentes das que temos hoje, como um FCC [um comitê regulador americano] decidindo quais evangelhos nos escutaríamos e quais não escutaríamos. Assim, a maioria na América não tem sido exposta à essa informação, pois pessoas há 1700 anos atrás achavam que mulheres deveriam estar falando. Jesus não conheceu essas pessoas." Ela ri. "Como alguém criando uma confusão num catálogo de Jimi Hendrix - 'Vamos tirar todas as guitarras fora'". "Eu não estou escrevendo o "Código DaVinci", ela adiciona. Sem dúvida, anos de aprendizado e pesquisas se foram no tecer de uma imensa, rica tapeçaria aqui apresentada. "Há muitos arquétipos com os quais estou lidando em The Beekeeper, diz ela. "Diferentes abelhas-rainhas de diferentes mitologias, seja Sekhmet ou Kuan-Yin, ou Freya ou a Rainha Maeue." Nenhuma surpresa, então, que a estória dentro de The Beekeeper tenha relação com unir diferentes pedaços e atingir uma completitude sem desconsiderar hierarquias e estruturas de poder. São séries de parábolas multifacetadas, lidando com temas tõa díspares quanto o equilíbrio entre masculino e feminino (um tema que ecoa musicalmente pelo uso de Amos tanto do piano, que é considerado um instrumento feminino, quanto do orgão, tradicionalmente considrerado masculino), ou a questão do porque a morte chega e se ela pode ser evitada. Guiando Amos como protagonista há um apicultor, que a ajuda a negociar os seis jardins do álbum. Há muito tempo Amos tem se interessado por abelhas (lembra-se de "Honey" do EP "Hey Jupiter"?) e aprendido mais sobre a apicultura com "The Shamanic way of the Bee: ancient wisdow and healing practices of the bee masters", de Simon Buxton. Nesse livro, Buxton descreve rituais de iniciação que eram usados para guiar apicultures aspirantes. "Ele começou a entender o equilíbrio entre a própria natureza, e entendeu que as abelhas levavam consigo este espaço sagrado de sexualidade, procriação que toma lugar no jardim." "Lendo sobre os assuntos relativos os mestres abelhas, eu comecei a vero apicultor como essa força criativa, essa força neutra em nossa estória." Não uma força a ser adorada ou obedecida, mas uma força cuja instrução pretende apenas iluminar, informar, reconhecer a importância que une todos os personagens no ciclo da vida." The Beekeeper começa, como em outra famosa alegoria que utiliza um jardim, com a heroína confrontada por um pedaço de fruta. Mas inspirada pelo "Livro secreto de João", Amos não apresenta um pai severo ordenando "você não deve"; ao invés, uma sábia mulher chamada Sophia motivando-a a comer da fruta. "Comendo da árvore do conhecimento, nossa personagem feminina começa a experimentar todas essas coisas: Paixão. Traição. Todas as emoções que você poderia possivelmente ter em um relacionamento. Em algumas em coloquei mais ênfase, em outras menos, mas estão todas lá. E nós desenvolvemos os seis jardins, o número 6 sendo o reflexo da forma hexagonal das células da colméia e, claro, os 6 dias que no Gênesis Deus levou para criar o mundo. Mitologias bíblicas e antigos mistérios femininos estão unidos. "Quando eu comecei a perceber que os jardins personificavam as diferentes relacionamentos que uma mulher poderia ter, as canções começaram a surgir e a surgir. Em um certo momento eu estava fazendo um ditado", diz Amos. Eu tive que me afastar e deixa-las me mostrar a forma que elas estavam criando.
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